segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Todo dia ela faz tudo sempre igual

Desse jeito...num dia , como qualquer outro, ela resolveu não mais cair como caíra tantas outras vezes. Bateu pé firme, tesou corpo, endureceu até o olhar, acreditando que quantas vezes mais protegida estivesse dos fatores externos por dentro também não se sentiria assim: completamente despida, entregue, desarmada, em pedacinhos, sem chão.

Nunca tinha se sentido como dessa vez, ferida por dentro, doía tanto que pensou não aguentar, ouvia e se repetia em todos os espelhos o que lhe quebrara por dentro, não sabia o que de verdade tinha acontecido, não fora um fato isolado mas uma sequencia de golpes certeiros desferidos à nenhuma distância que não aquela onde se vê a íris, ou se percebe aquela plumagem da curva da orelha, foi desse jeito que ela quebrou.

Derramava seus pequenos pedaços em lembranças desconexas, refez caminhos deixando suas partes como migalhas pra marcar o caminho por onde retornaria, foi no fim e parou. Decidiu que era hora de voltar e retomar-se.

Fora tantas vezes dele que não sabia se pertencer, pediu que saísse, que sumisse, apagasse, mas feriu e feriu-se. 

Assim, retomou-se e fez-se conforto pra sarar e seguir. 
 
E dessa vez, só dessa vez, contrariando Chico, não fez tudo igual.


quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Retrato em branco e preto

Acordei sem muita vontade, o despertador às 5:30 tocou me lembrando as obrigações: passar roupa, arrumar mochila, vestir e alimentar a criança, acariciar cachorras, levar o lixo pra fora, pegar o carro e o engarrafamento, voltar, chegar...Cheguei! Já são 9 em duas horas vai tocar novo despertador, mas antes tocou outro e o som desse, estridente e alto bloqueando sons externos mostrava em painéis luminosos outras resoluções: lembrar de esquecer, seguir em frente, sorrir sorrir, esquecer, definitivamente esquecer, mas como?

Como? Se me ocupa tanto tempo pensar em coisas engraçadas interessantes inteligentes pra enviar dizendo nos sinais criptografados: "- estou com saudade vem conversar comigo.", se me interesso por tecnologia pra acompanhar as novidades que lhe fazem brilhar os olhos, se volto ao dicionário e checo a gramática pra não errar, o português perfeito lhe ouriça os pêlos do braço.

De que jeito? Se me irrita mais que qualquer coisa em todo universo errar em sua frente, se pra me esconder afio as lanças da ironia e firo mais do que deveria em mil anos, a mil pessoas, se viro essa metralhadora de contraposições e desvio seu olhar de minhas feridas, grandes e velhas.

Em quanto tempo? Se desenvolvo poderes mágicos para transformar ouro em cinzas, risadas em gritos ( em caixa alta na maioria das vezes), saudade em afastamento. Corro cada vez mais longe, estou cada vez mais longe e sem saber como voltar.

Então sei que não vou esquecer, eu quando encontro o caminho de volta me deparo com os danos que causei e não sei mais se pedir desculpas e lamentar vão fazer surtir qualquer efeito, faço como Chico disse:
 "...Lá vou eu de novo como um tolo
Procurar o desconsolo
Que cansei de conhecer
Novos dias tristes, noites claras
Versos, cartas, minha cara
Ainda volto a lhe escrever..."
Pra te dizer que isso é pecado, não deveria ser desse jeito, eu fiz tudo errado. Desculpa.



terça-feira, 20 de agosto de 2013

De repente o vejo se transformar num menino igual a mim


"...
Dorme meu pequenininho,
Dorme que a noite já vem.
Teu pai está muito sozinho
De tanto amor que ele tem.
De repente o vejo se transformar
Num menino igual a mim
Que vem correndo me beijar,
Quando eu chegar lá de onde vim.
Um menino sempre a me perguntar
Um porquê que não tem fim.
Um filho a quem só queira bem
E a quem só diga que sim.
Dorme menino levado,
Dorme que a vida já vem.
Teu pai está muito cansado
De tanta dor que ele tem.
..."


"...e se Pedro dissesse que quer morar com o pai, você deixaria?", me perguntaram depois de uma conversa, respondi prontamente que NÃO, fiz cara zangada e mudei o assunto.

Mais tarde discutimos sobre prioridades e os pesos errados que eu colocara a cada indivíduo na minha vida, perdi mais essa discussão e devo ter perdido algumas outras coisas, mas a minha certeza, essa que sempre tive depois depois que ele nasceu, que não importando os vai e vens da vida, de quem estaria comigo,é a que não estou mais só mas fazer isso ser entendido é tão complicado quanto explicar a mais elaborada física quântica.

Então, é de novo hora de mover adiante, ele cresce a olhos vistos e me ensina mais que eu a ele, já mudei tanto e aprendi nesses cinco anos, e o discurso que por um tempo achei coerente de cuidar da minha vida, que ela está passando junto com o tempo e as oportunidades me assustou mas retomei a calma, na verdade foi ele quem me acalmou.

Quando Chico me diz:"... de repente o vejo se transformar num menino igual a mim...dorme que a vida já vem. Teu pai está muito cansado de tanta dor que ele tem...", eu estou mesmo observando mas sabendo que é a minha vida que está acontecendo, sou mãe e sou pai, assim como sou ele, me canso e a dor não é ver a vida passar, mas sim crescer.




sexta-feira, 3 de maio de 2013

O moço do sonho


Sabe quando você está tão saturado da mesma rotina, e olha que não é nem aquela de todo dia, mas o ciclo que se costuma repetir por qualquer motivo, comodismo, preguiça, medo, então resolve experimentar o sonho? 

EXPERIMENTAR deixar preconceitos, preceitos, preparações, qualquer "pre" que demonstre planejamento ou pensamento. Ir sem pensar em consequências, uma liberdade de coragem ou coragem de liberdade, pulo do penhasco quando voar ou cair na água tanto faz...

Foi assim com o moço do sonho, conheci em outro mundo paralelo, não seria pelas vias normais, apresentação formal, não se encaixaria...ele, numa conversa me perguntou: que tipo de música você gosta? Eu, querendo fazer média, disse todo tipo, cada uma tem o seu momento - diplomacia não era a resposta certa, recebi um então tá, a gente se fala! Pouco tempo depois, resolveu me dar outra chance de me redimir, então marcamos.

A minha primeira impressão observando ele conversar foi: eu tenho que ter cuidado com esse moço, aquela história da coragem, pular de penhasco e voar foi diminuindo, apesar da vontade de EXPERIMENTAR, era o novo interessante, inteligente, descolado, estilo barba e allstar, viajado, lindo, educado, mas recheado de "poréns", porém complicado, porém numa situação delicada, porém saindo ou ainda em outro lugar...começando a também como eu, experimentar.

E foi em meio às vontades, desejos, anseios por explorar que nos experimentamos. Urgências, vontades, fugas, fomos tudo novo e tudo tão bom, e também tão rápido que atropelamos algumas etapas, ou pulamos, nem sei...a dinâmica era tão rápida, planos que se faziam e desfaziam em minutos, ficava meio perdida no tempo ou no sonho. Juro que não sei.

Um belo dia eu tive medo, um medo tão grande que não sabia explicar, medo de estar tão à vontade despida de qualquer proteção, que de repente pular do penhasco já não seria o encontro da tal liberdade mas a possibilidade de uma ponta de rocha ou um mar bravio, não queria mais esses machucados, não mesmo. 

Hermética, era eu querendo retroceder e rearrumar armaduras, reconstruir as barreiras por detrás das quais me sentia segura e sã, mas na verdade já não podia mais, então como no ciclo eu me afasto, refugio no canto onde me refaço dos danos que me causo. 

O homem do sonho, ele sim, continua dando saltos dos penhascos e retomando seus ciclos, onde nos encontramos sempre, nesse lugar que chico disse:

 "...Um lugar deve existir
Uma espécie de bazar
Onde os sonhos extraviados
Vão parar
Entre escadas que fogem dos pés
E relógios que rodam pra trás
Se eu pudesse encontrar meu amor
Não voltava
Jamais..."


segunda-feira, 15 de abril de 2013

Era tanta saudade...

Revirando o que escrevi, entre lembranças pra apagar e memórias pra reescrever, encontrei essa nota e lembrei de uma amor tão grande que derramou...


Foi à primeira vista, nos conhecemos num ambiente de trabalho, muitas pessoinhas juntinhas prestando atenção nas vidas umas das outras, quando ele chegou de férias com o frescor de quem retoma a vida pra seguir vivendo, sem prestar muita atenção a pessoinhas juntinhas falando umas das outras.

Lula, tinha toda a pressa do mundo e todo o gosto de viver, bem humorado, falava pelos cotovelos e trazia tanta alegria a quem estava perto que ficou impossível não querer estar junto. Nos juntamos e percebi que aquela cola era definitiva, um primeiro amor de dizer "eu te amo" sem medo de não ter retorno. 

Então estávamos resolvidos, aquele amor cuidado duraria a eternidade, e as nossas praias, festas, jantares, carteados e fugidas durariam até sermos velhinhos demais pra conseguir correr com os nossos andadores. Só que nossos planos mudaram, muito de repente e rápido demais, aquela mesma vida tão bem vivida cobrava umas multas e juros por excesso de uso, foi quando não podíamos mais ficar colados todos os dias e eu pedi:

Eu que não tenho pedido muito ultimamente, agora vou fazer valer o meu crédito. Peço que considere retroativos, e juros e mora e multa.
Peço como nunca pedi antes, com tudo que se pode pedir: corpo, mãos espalmadas, cabeça baixa, do fundo, de alma, de coração, humildemente e com toda a vontade que existe.

Prece, oração, pedido, será como quiser chamar, faço todos em todos os momentos, e em retorno só peço que escute e compreenda, e depois atenda. Ofereço em troca todos os sacrifícios, penitências e provações, subirei escadarias, irei a pé até depois da linha do horizonte, estarei a postos, disposta e feliz por cumprir qualquer esforço desde que seja em agradecimento ao pedido atendido.

Peço por aquele que roubou e guardou meu coração, junto na sua coleção, de tantos outros corações que sem querer, não é um meliante, devo esclarecer, roubou e estocou dentro do seu próprio. Peço por ele por quem moveria o mundo feito o super-homem, fazendo retroceder ou adiantar o tempo, pra onde melhor estivesse, pois assim eu também melhor estaria.
  
É só por ele, a quem palavras como lealdade, cumplicidade, amizade e amor, saem do dicionário e lhe fazem definição, que peço neste momento pela plenitude, complementação, pela total e absoluta desfeitura (palavra neste momento inventada por mim para definir aquilo que é desfeito) de qualquer nó, meio nó ou nozinho que neste momento se aperte em qualquer lugar dele.

Rezo agora aos santos, ao meu Deus, peço por forças tão desconhecidas quanto as suas possibilidades de atendimento ao meu pedido, mas não peço só. Acredito infinitamente com toda a convicção que pude até agora arrecadar que nossos planos, de sermos na velhice como somos hoje, serão realizados como tantos outros que temos e ainda teremos.

Creio que esse pedido chega carregado de tantos outros pedidos de um tanto de outras pessoas que assim como eu, amam e se negam a seguir sem ele. Por ele, peço como peço por meu filho, que esse tanto de amor não pode ser em vão, não quero e não vou seguir sem que ele esteja ao meu lado, alcance pelo menos.

Restabelecimento, leveza, paz de espírito e corpo são, meu amigo, peço por você sempre.
em Terça, 5 de julho de 2011 às 16:03

Em 19 de Julho, ele não pode mais ficar, nos despedimos e ele vive agora sempre perto, quando penso e preciso.

E lembro quando Chico me diz: 

Era tanta saudade, é pra matar

Eu fiquei até doente, eu fiquei até doente ...
Se eu não mato a saudade, é "deixa estar"
Saudade mata a gente, saudade mata a gente..."

domingo, 14 de abril de 2013

Queimei meus navios


Mania de tentar esquecer uma coisa, pessoa, sentimento se concentrando em outros iguais...pulando de galho quebrado pra barco furado, perdi mais do que tempo, perdi juízo, vergonhas, pudores, noites...

Foi quando Chico me disse: "...se ao te conhecer dei pra sonhar, fiz tantos desvarios, rompi com o mundo, queimei meus navios, me diz pra onde é que inda posso ir...", que tudo fez mais sentido, e explico melhor para mim e para outras pessoas como foi essa história com ele, que foi sim meu, meu Preto.

Uma boa amiga na época me vendo sofrendo ainda por uma figura, o ícone da sua teoria do "homem baiano", me disse entre caldos de sururu, cervejas geladas e noitadas na Barra:  - Amiga, vou te apresentar o cara que vai te fazer esquecer esse aí em dois tempos! Mal sabíamos que ele não só me faria esquecer do anterior como de mim mesma.

O destino, juntou e laçou tantas linhas que na mesma Barra, das cervejas geladas e caldos de sururu nos conhecemos rapidamente, e a minha impressão foi do tempo parar. Apurei os sentidos, enxerguei mais dos que olhos um pouco puxados, sardas apesar da pele negra, cheiro de mar e perfume, lábios perfeitos, bem desenhados, simpatia no lidar, ousadia ao enlaçar uma cintura pra apenas dois beijinhos, era a entrada de um labirinto...

Puxei alguns fios, mexi palitos e liguei os meus pontos nos dele, desde o primeiro encontro voltando andando nas curvas de Ipitanga, chuva, vento, prancha, mochila, tudo depois só detalhe. Ao chegar passei a flutuar, pairava a centímetros do chão, tudo tão cheio e vazio de sentido. Num desses momentos adormeci e quando acordei peguei os olhos dele em mim, foi nessa hora que perdi a rota traçada certa pra vencer o labirinto.

Dali pra frente fui quem achava que encaixava melhor pra acompanhar, foi então perdida que achei ter visto saídas e futuros, enfrentei adversários imaginários, imaginei  dragões e travei guerras solitárias, eu contra o mundo pra ficar com ele, que de lá da outra ponta acabou ficando distante demais. Mudei de fora pra dentro, não conseguia pertencer aos lugares, nessa dimensão alternativa, meu refúgio, fiquei mais sozinha do que nunca. 

Parando pouco antes de não querer mais parar naquela sequência de erros terrível que consome em ciclos e esvazia. Estive tão triste que quando fui perguntar pra onde deveria ir me dei conta que ele já não estava lá para responder há tempos.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Agora eu era o rei...




Sempre tive uma queda por bons moços, pelo menos foi assim alguma hora dessa vida depois tudo se entortou ou consertou, depende de onde se olha. 

Um primeiro amor por um bom moço aconteceu há tempos, em época de ainda ser também princesa e acreditar em príncipes que deveriam me salvar...tem época pra tudo. 

Zé, foi a melhor pessoa que já conheci, bom menino, de boa família, bom amigo, bom colega, bom, bom, bom, mas nunca foi meu, só meu, como quis de todo o coração, que fosse pra sempre como nos contos de fada.

Foi o meu platônico mais persistente, durou mais que os anos que a Bela Adormecida dormiu, ou que a Branca de Neve sofreu nas mãos da madrasta. De amplo conhecimento daqueles que nos conheciam amava Zé até não poder mais, e sofria por ele ser bom e na sua bondade ser mesmo só meu amigo. 

Por ele criei um admirador secreto e através da brincadeira alimentei meus sonhos com poemas e músicas. No conto de fadas vivi um lindo romance, na vida real tomei porres homéricos, escrevi cartas de amor ridículas, um dia me enchi de coragem fui na casa de Zé e me declarei! Fui dispensada com a sutileza de príncipe encantado que só ele tinha mas depois chorei derramando todo o sentimento.

Ele então cresceu, namorou, noivou e casou como um bom moço, de boa família faz, eu também cresci e nunca mais tive notícia de Zé.

Foi então que Chico me disse:

" ...agora era fatal que o faz de conta terminasse assim, pra lá desse quintal, era uma noite que não tem mais fim, pois você sumiu no mundo sem me avisar, agora eu era um louco a perguntar o que é que a vida vai fazer de mim?".