segunda-feira, 15 de abril de 2013

Era tanta saudade...

Revirando o que escrevi, entre lembranças pra apagar e memórias pra reescrever, encontrei essa nota e lembrei de uma amor tão grande que derramou...


Foi à primeira vista, nos conhecemos num ambiente de trabalho, muitas pessoinhas juntinhas prestando atenção nas vidas umas das outras, quando ele chegou de férias com o frescor de quem retoma a vida pra seguir vivendo, sem prestar muita atenção a pessoinhas juntinhas falando umas das outras.

Lula, tinha toda a pressa do mundo e todo o gosto de viver, bem humorado, falava pelos cotovelos e trazia tanta alegria a quem estava perto que ficou impossível não querer estar junto. Nos juntamos e percebi que aquela cola era definitiva, um primeiro amor de dizer "eu te amo" sem medo de não ter retorno. 

Então estávamos resolvidos, aquele amor cuidado duraria a eternidade, e as nossas praias, festas, jantares, carteados e fugidas durariam até sermos velhinhos demais pra conseguir correr com os nossos andadores. Só que nossos planos mudaram, muito de repente e rápido demais, aquela mesma vida tão bem vivida cobrava umas multas e juros por excesso de uso, foi quando não podíamos mais ficar colados todos os dias e eu pedi:

Eu que não tenho pedido muito ultimamente, agora vou fazer valer o meu crédito. Peço que considere retroativos, e juros e mora e multa.
Peço como nunca pedi antes, com tudo que se pode pedir: corpo, mãos espalmadas, cabeça baixa, do fundo, de alma, de coração, humildemente e com toda a vontade que existe.

Prece, oração, pedido, será como quiser chamar, faço todos em todos os momentos, e em retorno só peço que escute e compreenda, e depois atenda. Ofereço em troca todos os sacrifícios, penitências e provações, subirei escadarias, irei a pé até depois da linha do horizonte, estarei a postos, disposta e feliz por cumprir qualquer esforço desde que seja em agradecimento ao pedido atendido.

Peço por aquele que roubou e guardou meu coração, junto na sua coleção, de tantos outros corações que sem querer, não é um meliante, devo esclarecer, roubou e estocou dentro do seu próprio. Peço por ele por quem moveria o mundo feito o super-homem, fazendo retroceder ou adiantar o tempo, pra onde melhor estivesse, pois assim eu também melhor estaria.
  
É só por ele, a quem palavras como lealdade, cumplicidade, amizade e amor, saem do dicionário e lhe fazem definição, que peço neste momento pela plenitude, complementação, pela total e absoluta desfeitura (palavra neste momento inventada por mim para definir aquilo que é desfeito) de qualquer nó, meio nó ou nozinho que neste momento se aperte em qualquer lugar dele.

Rezo agora aos santos, ao meu Deus, peço por forças tão desconhecidas quanto as suas possibilidades de atendimento ao meu pedido, mas não peço só. Acredito infinitamente com toda a convicção que pude até agora arrecadar que nossos planos, de sermos na velhice como somos hoje, serão realizados como tantos outros que temos e ainda teremos.

Creio que esse pedido chega carregado de tantos outros pedidos de um tanto de outras pessoas que assim como eu, amam e se negam a seguir sem ele. Por ele, peço como peço por meu filho, que esse tanto de amor não pode ser em vão, não quero e não vou seguir sem que ele esteja ao meu lado, alcance pelo menos.

Restabelecimento, leveza, paz de espírito e corpo são, meu amigo, peço por você sempre.
em Terça, 5 de julho de 2011 às 16:03

Em 19 de Julho, ele não pode mais ficar, nos despedimos e ele vive agora sempre perto, quando penso e preciso.

E lembro quando Chico me diz: 

Era tanta saudade, é pra matar

Eu fiquei até doente, eu fiquei até doente ...
Se eu não mato a saudade, é "deixa estar"
Saudade mata a gente, saudade mata a gente..."

domingo, 14 de abril de 2013

Queimei meus navios


Mania de tentar esquecer uma coisa, pessoa, sentimento se concentrando em outros iguais...pulando de galho quebrado pra barco furado, perdi mais do que tempo, perdi juízo, vergonhas, pudores, noites...

Foi quando Chico me disse: "...se ao te conhecer dei pra sonhar, fiz tantos desvarios, rompi com o mundo, queimei meus navios, me diz pra onde é que inda posso ir...", que tudo fez mais sentido, e explico melhor para mim e para outras pessoas como foi essa história com ele, que foi sim meu, meu Preto.

Uma boa amiga na época me vendo sofrendo ainda por uma figura, o ícone da sua teoria do "homem baiano", me disse entre caldos de sururu, cervejas geladas e noitadas na Barra:  - Amiga, vou te apresentar o cara que vai te fazer esquecer esse aí em dois tempos! Mal sabíamos que ele não só me faria esquecer do anterior como de mim mesma.

O destino, juntou e laçou tantas linhas que na mesma Barra, das cervejas geladas e caldos de sururu nos conhecemos rapidamente, e a minha impressão foi do tempo parar. Apurei os sentidos, enxerguei mais dos que olhos um pouco puxados, sardas apesar da pele negra, cheiro de mar e perfume, lábios perfeitos, bem desenhados, simpatia no lidar, ousadia ao enlaçar uma cintura pra apenas dois beijinhos, era a entrada de um labirinto...

Puxei alguns fios, mexi palitos e liguei os meus pontos nos dele, desde o primeiro encontro voltando andando nas curvas de Ipitanga, chuva, vento, prancha, mochila, tudo depois só detalhe. Ao chegar passei a flutuar, pairava a centímetros do chão, tudo tão cheio e vazio de sentido. Num desses momentos adormeci e quando acordei peguei os olhos dele em mim, foi nessa hora que perdi a rota traçada certa pra vencer o labirinto.

Dali pra frente fui quem achava que encaixava melhor pra acompanhar, foi então perdida que achei ter visto saídas e futuros, enfrentei adversários imaginários, imaginei  dragões e travei guerras solitárias, eu contra o mundo pra ficar com ele, que de lá da outra ponta acabou ficando distante demais. Mudei de fora pra dentro, não conseguia pertencer aos lugares, nessa dimensão alternativa, meu refúgio, fiquei mais sozinha do que nunca. 

Parando pouco antes de não querer mais parar naquela sequência de erros terrível que consome em ciclos e esvazia. Estive tão triste que quando fui perguntar pra onde deveria ir me dei conta que ele já não estava lá para responder há tempos.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Agora eu era o rei...




Sempre tive uma queda por bons moços, pelo menos foi assim alguma hora dessa vida depois tudo se entortou ou consertou, depende de onde se olha. 

Um primeiro amor por um bom moço aconteceu há tempos, em época de ainda ser também princesa e acreditar em príncipes que deveriam me salvar...tem época pra tudo. 

Zé, foi a melhor pessoa que já conheci, bom menino, de boa família, bom amigo, bom colega, bom, bom, bom, mas nunca foi meu, só meu, como quis de todo o coração, que fosse pra sempre como nos contos de fada.

Foi o meu platônico mais persistente, durou mais que os anos que a Bela Adormecida dormiu, ou que a Branca de Neve sofreu nas mãos da madrasta. De amplo conhecimento daqueles que nos conheciam amava Zé até não poder mais, e sofria por ele ser bom e na sua bondade ser mesmo só meu amigo. 

Por ele criei um admirador secreto e através da brincadeira alimentei meus sonhos com poemas e músicas. No conto de fadas vivi um lindo romance, na vida real tomei porres homéricos, escrevi cartas de amor ridículas, um dia me enchi de coragem fui na casa de Zé e me declarei! Fui dispensada com a sutileza de príncipe encantado que só ele tinha mas depois chorei derramando todo o sentimento.

Ele então cresceu, namorou, noivou e casou como um bom moço, de boa família faz, eu também cresci e nunca mais tive notícia de Zé.

Foi então que Chico me disse:

" ...agora era fatal que o faz de conta terminasse assim, pra lá desse quintal, era uma noite que não tem mais fim, pois você sumiu no mundo sem me avisar, agora eu era um louco a perguntar o que é que a vida vai fazer de mim?".

Fique calada, me deixe mudo



"Não diga nada
Saiba de tudo
Fique calada
Me deixe mudo
Seja no canto, seja no centro
Fique por fora, fique por dentro
Seja o avesso, seja a metade
Se for começo fique a vontade
Não me pergunte, não me responda
Não me procure, e não se esconda"



Assim Chico disse, só não a mim, em algum momento quando a instrução de como ser, portar-se, dispor-se, ater-se chegou, era eu que não estava, perdi!

E agora ao contrário, deixei de calar, digo logo não sou baú pra guardar nada! Prefiro saber pouco, ainda que não controle a minha curiosidade, fuçando e esmiuçando descubro que devia mesmo não saber.

Insisto que diga, saber de você, mesmo morrendo de medo, meio tapando os ouvidos, vendo através dos dedos, olhando depois a mensagem, não deixo mudo, quero que fale.

Estou e não estou, no canto, na frente ou à mão, entre presença e ausência, me reveso entre online e out of line. Disponível quando me quer, indisponível quando não te quero mais.

Sou certa, só frentes, completa, inteira, da capa ao miolo. Contrária, contrária...

Nem no começo apesar das vontades, incômodo e desconforto, arredia, sou só superfície, hermética, uma vez me disseram, acesso irrestrito ao que se pode ter de mais efêmero, paraíso finito. No fim, não sei, não cheguei no fim ainda.

Então fiz o questionário, com o gabarito anexo, mandei por email, toquei sua campainha e saí correndo.


segunda-feira, 8 de abril de 2013

Não se afobe não que nada é pra já...

"...Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos

Vestígios de estranha civilização..."

Recomeço nesse passo da letra de Futuros Amantes que Chico me disse, quero produzir aqui as cartas, poemas, palavras e mentiras dos meus amores. 

Acho que eu devia começar da  primeira paixão que me recordo, na primeira série, logo que saí da pré-escola e entrei no colégio onde meus irmãos mais velhos já estudavam e que era pra mim um horizonte tão maior do que o arco de entrada e o pé de goiaba da antiga escolinha, que todos os dias sentia a excitação misturada com o medo terrível de recomeçar (acho que é a minha primeira recordação desse meu medo), o que fazia minha timidez potencializar ao máximo, queria virar os gongolos que costumava catar e brincar no jardim, mas aí passadas as primeiras aulas de adaptação, a missão de fazer novos amigos (mais uma primeira lembrança de outro medo), numa troca de cadernos a pró por engano colocou o de Miguel em minha mochila.

Miguel era a criança mais linda que já tinha visto, estava acostumada com a aversão dos meninos comum da idade, achava todos feios, melequentos, perturbados, mas ele não! 
Acho que nem era daqui, na época costumávamos ter muitos colegas de passagem, filhos de executivos ou funcionários públicos transferidos, ou alguma coisa do gênero. Ele chegava sempre bem arrumado, tinha os cabelos loiros, lisos, os olhos bem azuis, usava óculos e além de toda beleza era o mais inteligente da turma, como não amar?

Então o caderno dele veio parar por engano ou destino em minha mochila. Chegando em casa não tinha reconhecido até ver o cabeçalho tão bem feito que eu própria não costumava fazer, nas folhas de tarefas corrigidas encontrava ainda todo tipo de expressão de contentamento da professora às lições primorosamente respondidas. Era como se encontrasse um tesouro, no êxtase por estar com um pertence de Miguel, folheei com o cuidado com que se folheia uma obra de literatura de rara existência, senti que tinha encontrado um amor perfeito, baseado na perfeição dele próprio. 

Comecei cedo nessa carreira de amor platônico, amava ele com toda a minha timidez, amava por ser lindo, por ser inteligente e por não notar a minha existência. Eu devia ser uma das 6 Renatas da sala, nessa época me destacava pela total transparência, fazia questão, não existir me permitia viver meus sonhos sem que ninguém percebesse...

Destrocamos os cadernos na manhã seguinte, ele feliz por reaver o seu companheiro de estudos e eu arrasada por devolver a parte dele que me pertenceu.

Amei Miguel na sua perfeição até as férias de Junho quando ele viajou de volta a sua cidade de origem. Depois vieram mais anjos, arcanjos, santos e demônios nessa vida, desses conto depois...